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Criminalidade organizada interfere nas eleições de municípios no interior do Brasil.

Segundo um relatório sigiloso sobre as eleições municipais de 2024 ao qual o Fantástico teve acesso, grupos criminosos tentaram interferir nas campanhas de 2024 em pelo menos 42 cidades.

Facções criminosas têm se infiltrado nas eleições de municípios do interior do Brasil, com o objetivo de controlar o resultado e garantir benefícios ilícitos. Em João Dias, uma pequena cidade do Rio Grande do Norte, esse envolvimento foi fatal. O prefeito Francisco Damião de Oliveira, conhecido como Marcelo, foi executado em agosto do ano passado, durante sua campanha pela reeleição.

Marcelo e seu pai foram assassinados por um grupo de traficantes ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), após uma disputa pelo poder local. A cidade, com pouco mais de 2 mil habitantes, se tornou palco de um conflito que envolveu acordos ilícitos feitos durante a eleição anterior, envolvendo traficantes e políticos.

Acordos e manipulação política

Em áudios que circulam nas investigações, Francisco Deusamor Jácome, traficante condenado por tráfico internacional e vinculado ao PCC, oferece uma quantia significativa ao então candidato Marcelo. A gravação revela que Deusamor prometeu R$ 500 mil a Marcelo, sugerindo que o dinheiro seria uma forma de "remediar" sua vida política. Deusamor, mesmo sendo procurado pela Interpol, fez aparições públicas durante a campanha e era conhecido por seu envolvimento com o tráfico de drogas.

"É muito dinheiro", diz Deusamor em um dos áudios. O tráfico de drogas na região é controlado por ele e seus irmãos, sendo Leidjan Jácome um dos principais nomes do esquema no Nordeste. De acordo com a Polícia Civil, a família Jácome tem um longo histórico de envolvimento com o PCC, com quatro irmãos condenados por tráfico internacional de drogas antes de 2019.

Traficantes controlam município

Deusamor e Leidjan Jácome, que chegaram a comercializar mais de R$ 30 milhões em maconha, seriam os verdadeiros gestores da cidade, mesmo antes da renúncia de Marcelo, que aconteceu em junho de 2021, após seis meses de mandato. Na sequência, a vice-prefeita, Damária Jácome, irmã de Deusamor, assumiu o cargo, dando continuidade à influência da facção criminosa na política local.

Em seu discurso de posse, Damária fez referência aos irmãos envolvidos no tráfico, reforçando a conexão entre o crime organizado e a administração municipal. "Dedico esse dia aos meus sete irmãos", disse Damária, destacando seus irmãos traficantes como pilares da gestão pública.

A Polícia Civil acredita que o controle do município por traficantes do PCC visava acessar os recursos financeiros da prefeitura, que em 2023 teve uma receita de R$ 23 milhões, provenientes de impostos municipais e repasses federais.

O interesse das facções no poder político

O envolvimento de facções criminosas nas disputas eleitorais reflete a busca por poder político em locais onde esse controle pode gerar lucros ilícitos. Segundo Mário Sarrubbo, secretário nacional de Segurança Pública, as facções buscam se infiltrar na política de municípios com alto poder econômico. “A estratégia é tomar esse poder político onde ele pode gerar algum tipo de proveito econômico", explica.

Interferência nas eleições em todo o Brasil

O Fantástico teve acesso a um relatório sigiloso da Polícia Federal, que revelou a tentativa de interferência de facções criminosas em, pelo menos, 42 cidades nas eleições municipais do ano passado. Em São Paulo, por exemplo, o PCC teria investido R$ 8 bilhões em apoio a diversas candidaturas.

Com essas revelações, as autoridades reforçam a necessidade de uma vigilância rigorosa para evitar a infiltração do crime organizado no processo eleitoral e garantir a integridade das eleições no Brasil. “Precisamos estar atentos a isso e estancar esses movimentos”, afirmou Mário Sarrubbo.

Facções criminosas tentaram, nas eleições de 2024, interferir na campanha em pelo menos 42 cidades, aponta relatório sigiloso da PF. — Foto: Reprodução/TV Globo

Em outubro de 2021, dois meses após assumir a prefeitura, Damária Jácome decretou luto de três dias após a morte de dois dos seus irmãos em confrontos com a polícia na Bahia. A cidade de João Dias, marcada pela violência, testemunhou mais uma tragédia dentro da própria família Jácome.

Damária Jácome enfrentou uma série de reveses familiares e políticos. Seus irmãos Deusamor e Leidjan Jácome foram mortos em um confronto com a polícia na Bahia, enquanto José Romeu Jácome foi preso durante a mesma operação. Samuel Jácome, outro irmão envolvido no tráfico, havia sido capturado meses antes e atualmente cumpre pena no presídio federal de segurança máxima de Porto Velho, em Rondônia.

Após a morte de seus irmãos, Damária perdeu o cargo de prefeita em 2022, quando uma decisão judicial anulou sua renúncia e restaurou Marcelo ao comando da prefeitura. O clima na cidade era de tensão. Segundo o delegado Alex Freire, Marcelo temia por sua vida devido às ameaças feitas pelos irmãos de Damária e começou a colaborar com as investigações policiais sobre o tráfico de drogas e a atuação da facção criminosa.

A escalada de ameaças e o atentado fatal

O clima de insegurança se intensificou quando Marcelo, reeleito, enfrentava Damária em uma nova disputa pela prefeitura. Naquela campanha, em 2020, o grupo armado de Damária era bem conhecido na cidade, o que fez com que Marcelo também montasse sua própria força de segurança.

Pouco antes de sua morte, Marcelo afirmou que "o que vem por aí, talvez tenha gente que nem aguente". Esses alertas foram proféticos, pois, dias depois, ele e seu pai foram mortos em um atentado.

Detalhes da execução

A investigação revelou que Damária e sua irmã Leidiane, vereadora de João Dias, teriam sido as responsáveis por contratar os assassinos de Marcelo. Segundo os investigadores, os executores passaram cerca de 10 dias em um sítio pertencente à família Jácome, preparando o crime. O sítio foi usado como base para planejar o assassinato.

Em um vídeo feito por um dos criminosos, ele comenta sobre a violência e sobre as dificuldades que enfrentaram para concretizar o crime devido à segurança armada de Marcelo, que dificultava a execução do plano. Os mandantes do crime cogitaram até matá-lo durante um culto evangélico, mas acabaram decidindo por outro momento, quando Marcelo e o pai estavam em uma barbearia.

Prisões e buscas

Nove suspeitos foram presos pelo crime, e quatro continuam foragidos, incluindo Damária. A polícia segue em busca dos responsáveis e procura esclarecer toda a rede de envolvimento da família Jácome com o tráfico de drogas e o PCC.

O outro lado

A equipe do Fantástico tentou, sem sucesso, obter uma declaração da atual prefeita, Maria de Fátima Mesquita da Silva, do União Brasil, viúva do ex-prefeito assassinado. Em nota, a prefeitura declarou que a cidade atravessa um momento de grande instabilidade e que está trabalhando para restaurar a normalidade e segurança para a população.

A casa da família Jácome estava vazia no momento da visita da equipe de reportagem. O advogado de defesa da família negou qualquer envolvimento de Damária e Leidiane no assassinato e alegou que as irmãs deixaram João Dias por temerem por suas vidas devido a ameaças de morte.

A influência das facções no poder político local

O delegado Carlos Fonseca destaca o impacto das facções criminosas no poder político local, ressaltando que, ao ocuparem cargos importantes na administração pública, essas facções não garantem a lavagem de dinheiro, mas também desviam recursos que seriam destinados à população carente. “O que ocorre em João Dias é um reflexo de como o crime organizado busca controlar o poder local para seus próprios interesses, desviando recursos públicos”, conclui o delegado.

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