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Explosão no sistema prisional: número de mulheres presas em Mato Grosso cresce 55%.

Por trás das grades, uma nova realidade se impõe no sistema prisional de Mato Grosso: a presença feminina entre criminosos cresceu vertiginosamente. Em oito anos, o número de mulheres encarceradas no Estado saltou 55,95%, revelando uma face pouco explorada da criminalidade — e cada vez mais ativa.

De acordo com a Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), em 2016 havia 529 mulheres presas em Mato Grosso, número que saltou para 825 em 2024. Enquanto isso, a população carcerária masculina cresceu apenas 16% no mesmo período.

Especialistas apontam que esse avanço não é coincidência, mas reflexo de uma reconfiguração do crime organizado. “O crime, assim como a sociedade, se adapta. E hoje, a mulher não está mais apenas nos bastidores. Ela comanda, recruta e executa”, afirma Vladia Soares, professora de Criminologia da UFMT e coordenadora-adjunta do Núcleo de Estudos sobre as Vulnerabilidades (Nevu).

Segundo ela, vários fatores empurram essas mulheres para dentro das facções: a repressão mais dura aos líderes homens, que abriu espaço nas cadeias de comando; a vulnerabilidade social, que torna muitas alvos fáceis para o aliciamento; e os vínculos afetivos, que muitas entram no crime por influência de parceiros ou familiares envolvidos.

A presença crescente de mulheres nas lideranças criminosas exige políticas públicas específicas. Não basta punir. É preciso entender o contexto social, criar alternativas e investir na prevenção e ressocialização”, reforça a criminóloga.

Comando e crueldade

A mudança de papel das mulheres no crime não é apenas numérica. Ela também é marcada por frieza e brutalidade. É o caso de Angélica Saraiva de Sá, a “Angeliquinha”, apontada como uma das principais lideranças femininas do Comando Vermelho (CV) em Mato Grosso. Presa desde 2017, ela acumula mais de 260 anos de condenação por homicídios, ocultação de cadáver e participação em facção criminosa.

Em março deste ano, Angeliquinha foi condenada a mais 99 anos de prisão por envolvimento na execução de quatro homens em Nova Monte Verde, em 2022. Segundo o Ministério Público, as vítimas — trabalhadores de uma obra — foram confundidas com membros do PCC e tiveram a morte decretada pela criminosa. Mesmo dentro da penitenciária, ela continuou a arquitetar crimes, incluindo uma tentativa de forjar uma gravidez para obter prisão domiciliar.

Outro nome que assusta é o de Nithiely Catarina Day Souza, conhecida como “Princesinha Macabra”. Presa desde 2022, ela foi condenada este ano a 32 anos e 10 meses de prisão por ordenar e gravar a execução de um jovem em Lucas do Rio Verde.

Entre a punição e a prevenção

O aumento do encarceramento feminino, especialmente entre lideranças do crime, lança luz sobre um problema que vai além da segurança pública. Ele expõe falhas sociais profundas, que vão da pobreza extrema à ausência de oportunidades reais para mulheres em situação de vulnerabilidade.

Mais do que repressão, especialistas defendem a criação de políticas específicas para prevenção, acolhimento e ressocialização, que levem em conta os desafios e contextos particulares do universo feminino.

Porque, no fim das contas, a prisão é o sintoma. O que precisa ser combatido está muito antes disso: nas ruas, nos lares, e na omissão de um Estado que ainda não aprendeu a proteger quem mais precisa.

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