De acordo com a Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), em 2016 havia 529 mulheres presas em Mato Grosso, número que saltou para 825 em 2024. Enquanto isso, a população carcerária masculina cresceu apenas 16% no mesmo período.
Especialistas apontam que esse avanço não é coincidência, mas reflexo de uma reconfiguração do crime organizado. “O crime, assim como a sociedade, se adapta. E hoje, a mulher não está mais apenas nos bastidores. Ela comanda, recruta e executa”, afirma Vladia Soares, professora de Criminologia da UFMT e coordenadora-adjunta do Núcleo de Estudos sobre as Vulnerabilidades (Nevu).
Segundo ela, vários fatores empurram essas mulheres para dentro das facções: a repressão mais dura aos líderes homens, que abriu espaço nas cadeias de comando; a vulnerabilidade social, que torna muitas alvos fáceis para o aliciamento; e os vínculos afetivos, já que muitas entram no crime por influência de parceiros ou familiares envolvidos.
“A presença crescente de mulheres nas lideranças criminosas exige políticas públicas específicas. Não basta punir. É preciso entender o contexto social, criar alternativas e investir na prevenção e ressocialização”, reforça a criminóloga.
Comando e crueldade
A mudança de papel das mulheres no crime não é apenas numérica. Ela também é marcada por frieza e brutalidade. É o caso de Angélica Saraiva de Sá, a “Angeliquinha”, apontada como uma das principais lideranças femininas do Comando Vermelho (CV) em Mato Grosso. Presa desde 2017, ela já acumula mais de 260 anos de condenação por homicídios, ocultação de cadáver e participação em facção criminosa.
Em março deste ano, Angeliquinha foi condenada a mais 99 anos de prisão por envolvimento na execução de quatro homens em Nova Monte Verde, em 2022. Segundo o Ministério Público, as vítimas — trabalhadores de uma obra — foram confundidas com membros do PCC e tiveram a morte decretada pela criminosa. Mesmo dentro da penitenciária, ela continuou a arquitetar crimes, incluindo uma tentativa de forjar uma gravidez para obter prisão domiciliar.
Outro nome que assusta é o de Nithiely Catarina Day Souza, conhecida como “Princesinha Macabra”. Presa desde 2022, ela foi condenada este ano a 32 anos e 10 meses de prisão por ordenar e gravar a execução de um jovem em Lucas do Rio Verde.
Entre a punição e a prevenção
O aumento do encarceramento feminino, especialmente entre lideranças do crime, lança luz sobre um problema que vai além da segurança pública. Ele expõe falhas sociais profundas, que vão da pobreza extrema à ausência de oportunidades reais para mulheres em situação de vulnerabilidade.
Mais do que repressão, especialistas defendem a criação de políticas específicas para prevenção, acolhimento e ressocialização, que levem em conta os desafios e contextos particulares do universo feminino.
Porque, no fim das contas, a prisão é só o sintoma. O que precisa ser combatido está muito antes disso: nas ruas, nos lares, e na omissão de um Estado que ainda não aprendeu a proteger quem mais precisa.